O Monumento
Fundado no reinado de D. Afonso IV, por iniciativa de D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital e pai do futuro Condestável do Reino, Nuno Álvares Pereira, o Castelo de Amieira do Tejo constitui um caso ímpar no panorama da arquitectura militar portuguesa, pela exemplaridade e regularidade do seu traçado, herdeiro dos mais avançados conceitos das fortificações mediterrânicas.
A responsabilidade pela edificação de um castelo no território da Amieira – de grande valor estratégico, devido à proximidade do Tejo e ao facto de se tratar dum ponto de passagem importante – cabe assim ao Prior da Ordem dos Hospitalários, após a transferência, em 1356, da sede da Ordem de Leça do Bailio para o Mosteiro de Flor da Rosa. Em 1359, o edifício encontrar-se-ia assim praticamente concluído: de planta quadrangular, dotado de quatro torres nos cantos, assumindo a maior as funções de Torre de Menagem e simultaneamente de residência, com pátio rectangular e cisterna central e inteiramente rodeado por uma extensa barbacã, constitui um dos exemplos considerados mais emblemáticos do “castelo gótico”, pelo geometrismo do traçado e pela autonomia face aos condicionalismos geográficos, em oposição ao castelo românico, mais orgânico e dependente das condições naturais de defesa.
Adoptado pelo fundador como refúgio durante os seus últimos anos de vida, o castelo da Amieira só foi verdadeiramente afectado pelo cerco de 1440, aquando da contenda entre a rainha D. Leonor - aliada de Castela - e o regente D. Pedro, que se viu obrigado a reforçar os exércitos nos pontos mais frágeis da região fronteiriça. Do período manuelino, há testemunhos de construções adossadas no interior da estrutura fortificada, como a zona residencial edificada entre a Torre de Menagem e a Torre de S. João Baptista, de que restam alguns arranques de abóbada, e o negativo desta cobertura no paramento da muralha, bem como a janela com “conversadeiras” rasgada ao nível de um primeiro piso, hoje inexistente. A capela de S. João Baptista, erigida na face leste da barbacã em data que tem sido interpretada como 1566, traduz a conhecida devoção da Ordem a este Santo e a decadência das funções defensivas do castelo. A decoração em esgrafito da abóbada do templo, dividida em caixotões ornamentados com grotescos, figuras antropomórficas, putti e ornatos vegetalista de gosto maneirista constitui um caso invulgar na utilização desta técnica, pese embora a ingenuidade da execução.
A partir do século XVI o Castelo de Amieira regista, gradualmente, uma situação de abandono e de degradação, fruto da inactividade bélica e da falta de manutenção, situação que a documentação de 1759 expressa, quando refere que as quatro torres não têm já “sobrados nem telhados e a sala principal entre as duas primeiras torres está arruinada”. Acabou por ser a transferência - ocorrida após a lei de 1846 - dos enterramentos da igreja para o interior do recinto do castelo, no adro delimitado pelas quatro torres, que garantiu algum cuidado na manutenção daquele espaço. Já então o castelo estaria desafectado das habitações que o ocuparam durante largos anos, e que se encontrariam semi-destruídas desde o século XVIII, sendo o único acesso ao recinto fortificado feito através da capela de S. João Baptista.
No início do século XX, o castelo de Amieira, destituído das construções mais nobres que o adornavam outrora e ocupado por “casebres de moradia, estábulos e pocilgas” encontrava-se, à semelhança de muitos dos seus congéneres um pouco por todo o país, votado ao abandono, sendo utilizado como curral e abrigo de pastores, e o pátio central fora transformado em cemitério. Este estado de incúria não impede que, em 10 de Novembro de 1922, seja classificado como Monumento Nacional, sendo nessa qualidade que recebe, em 1950, extensas obras de restauro da responsabilidade da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais. Na década de 90 do século a Torre de Menagem é alvo de uma campanha de remodelação e em 2005-2006, ao abrigo do PORA, são restaurados os esgrafitos da Capela e as pinturas murais da Torre do Sangueirinho (raro exemplo de decoração pictórica num monumento militar), e a realizadas sondagens arqueológicas.